Sentada num café enquanto escrevo este texto, neste exato instante, há pessoas em um luto doloridíssimo. Toda uma comunidade em Suzano/SP viveu recentemente momentos de terror: dois jovens entraram numa escola atirando e matando adolescentes e adultos. Só de digitar esta última frase, meu coração aperta e dói. Talvez no momento que você leia este artigo, já tenha se passado semanas ou meses deste ocorrido. Mas como somos seres humanos, há grandes chances que, ao relembrar esse episódio, ele provoque tristeza novamente.

Especialmente se você, assim como eu, é educador. Tiroteio em escola é o tipo de notícia que apavora, fere a alma e gela o coração – e peço desculpas por trazer à tona o assunto mais uma vez. A intenção desta reflexão não é um simples reviver uma ação fruto de mentes doentes, até porque as causas e condições para que uma tragédia dessa se produza são múltiplas, complexas e vão muito além do escopo deste texto. A intenção aqui é sim direcionar o olhar para uma discussão mais ampla: como cultivar, em nós mesmos e em nossos alunos, uma mente mais saudável?

Professores, em geral, são os seres mais altruístas que conheço. Estamos falando de abraçar uma vocação, de amar a infância, de se apaixonar pelo potencial da juventude, de uma vontade profunda de mudar o mundo.

E essa visão muitas vezes se choca com a realidade que muitas crianças hoje em dia sofrem, e muito. Sofrem porque talvez não encontrem em suas casas e amigos o apoio necessário para desenvolver-se de forma sadia. Talvez seus pais estejam em grande sofrimento também. Talvez nós, professores, vez por outra nos deixemos submergir em problemas e frustração. Talvez não haja diálogo e tudo o que exista seja uma solidão ou vazio que tentamos preencher com jogos viciantes, comida açucarada, youtubers e Netflix.

 “Há uma quantidade enorme de sofrimento nos jovens e isso torna a tarefa de ensinar bem mais difícil”, esta frase é do grande professor e mestre zen Thich Nhat Hanh. E se ela pareceu refletir a sua realidade, esse texto é para você, pois se quisermos que o aprendizado aconteça, temos antes de cuidar antes das mentes envolvidas neste processo.

Costumo dizer aos meus alunos que cuidar da mente é como cuidar de um jardim. E o passo número um é olhar para o jardim. Pode parecer básico, elementar, mas precisamos olhar, conhecer nossa mente. E pode ser mais desafiador do que parece, pois vivemos uma época em que somos sufocados por milhares de mensagens todo o tempo. Nossa atenção é tomada por múltiplas demandas da casa e do trabalho e frequentemente bombardeada por fragmentos de informações que nos chegam pela TV na padaria, a tela no elevador ou letreiro luminoso da rua.

Neste panorama, é imprescindível abrir espaços em que possamos permitir esse “olhar para dentro”, tomar consciência de nosso mundo interno. A prática da meditação é uma forma de aquietar, estabilizar a atenção e cultivar um estado de mente que é atento, aberto e curioso. Se achar uma boa ideia, você pode praticar em casa usando este áudio de meditação guiada e preparar-se para levar as práticas de meditação para a sala de aula, seguindo este guia com 5 passos.

Quando olhamos para o jardim com atenção, vemos que pode haver flores e arbustos lindos, mas também papéis e garrafas jogadas, ervas daninhas, e todo tipo de sujeira, especialmente se faz tempo que não cuidamos dele.

Da mesma forma é a nossa mente: temos pensamentos virtuosos e sentimentos agradáveis, mas também experimentamos, com maior ou menor frequência, pensamentos autodepreciativos, emoções difíceis e estados mentais aflitivos.  Com a atenção plena fortalecida com ajuda da meditação, vamos tomando consciência destes pensamentos e emoções. Assumimos uma melhor posição para lidar com eles, observando-os, sem precisar reprimi-los nem os incentivar, entendendo que emoções e pensamentos surgem como nuvens no espaço da mente, permanecem por um tempo e se vão.

O segundo passo é ser capaz de remover a sujeira do jardim, ou seja, deixar ir – soltar com gentileza os pensamentos que nos machucam, que apenas consomem tempo e energia sem trazer nada de construtivo. Por exemplo, quando temos uma discussão mais dura com um aluno ou uma reunião complicada com alguma família, podemos depois ficar remoendo o ocorrido por muito tempo. É importante aprender com as experiências, claro, mas é também saudável saber soltar com gentileza o que não pode ser mudado, e estudos mostram que as práticas contemplativas são um grande apoio nesse sentido.

Por fim, após termos enxergado o jardim e nos familiarizado com ele, removendo o que não contribui para sua beleza, é hora de regar as flores. Práticas de bondade-amorosa como esta têm um efeito comprovado em aumentar o bem-estar, em fazer florescer em nós empatia e compaixão. Em sala de aula, podemos pedir que alunos escrevam listas de desejos bondosos para todos os colegas da classe. Podemos fazer um amigo secreto de pensamentos positivos. Pode parecer estranho no começo, mas minha experiência mostra que essa prática é altamente benéfica e valorizada pelos estudantes.

Assim como cuidar de um jardim, cuidar da saúde da mente requer intenção, tempo e um certo esforço também. Se você achou as sugestões deste texto de alguma utilidade, desejo, de coração, que leve estas práticas para sua vida e para a sala de aula. Ouso dizer que não há nada que seja mais importante em sala de aula, pois mentes mais saudáveis são mentes mais prontas para o convívio harmonioso e aprendizado duradouro.

As escolas (e o mundo) precisam disso <3